quinta-feira, 7 de maio de 2009

O Romance Regionalista e a Descoberta do Brasil


O romance regionalista foi o primeiro romance a ganhar autonomia dos ideais vindos da Europa, porém ele ainda manteve fortemente a ideia do nacionalismo. Seu projeto literário consistia em "revelar o Brasil para os brasileiros", isso devido as pessoas do século XIX que viviam nas cidades serem muito influenciadas pelos modelos europeus, o que fez com que alguns escritores decidissem usar suas obras para divulgar os aspectos regionais e, assim, mostrar o Brasil desconhecido pelos seus habitantes. Além disso, o romance regionalista começou a valorizar as diferenças étnicas, linguísticas, sociais e culturais de cada região do país.

Suas Características




As obras desse gênero literário passaram a retratar a sociedade rural do interior do Brasil, como o nordeste e o sul do país, dando ênfase nas paisagens desconhecidas e em seus habitantes; se opondo assim ao romance urbano, que retratava a elite brasileira nos grandes centros urbanos. Além disso, possuía uma linguagem fácil e dinâmica, ou seja, o autor escrevia como se estivesse numa conversa com o seu leitor, para assim deixá-lo mais próximo de seus personagens e da história narrada.

O Público









As obras regionalistas eram destinadas a classe média dos centros urbanos, principalmente aos jovens. Apesar de retratar a vida do interior brasileiro, os habitantes dessa região não tinham contato com essa obras, já que pensavam que estas iriam corromper as moças de família, devido as características fortes e independentes de suas personagens.

Principais escritores:


Dentre os autores de romances regionalistas, podemos dizer que se destacam José de Alencar, Franklin Távora, Bernardo Guimarães e Visconde de Taunay.

José de Alencar



José Martiniano de Alencar nasceu no Ceará em 1829. Se formou em direito e anos mais tarde se tornou redator-chefe do Diário do Rio de Janeiro.
Alencar foi um dos mais importantes escritores do romantismo brasileiro. Primeiramente, se caracterizou por escrever romances urbanos, dando ênfase para a capital do império, o Rio de Janeiro. Porém, posteriormente passou a escrever romances sobre as características regionais e com suas personagens tinha o objetivo de definir o homem trabalhador. Com isso, as mulheres, que nos romances urbanos eram descritas como fortes e independentes, passam a se tornar submissas e as personagens masculinas começam a demonstrar maior importância.
Os seus principais romances regionais são “O Gaúcho” (1970); “O Tronco do Ipê” (1871); “Til” (1872) e“ O Sertanejo” (1875).

O Gaúcho





Em “O Gaúcho”, Alencar caracteriza fortemente a personagem do interior, falando sobre seus aspectos físicos e suas virtudes. Além disso, como num típico romance regionalista, ele descreve as paisagens (Pampas) e os costumes dessa região, que neste caso era o sul do país. Então, pode se dizer, que
"O Gaúcho" é uma apresentação de um local desconhecido pela população urbana.
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"Era o cavaleiro moço de 22 anos quando muito, alto, de talhe delgado, mas robusto. Tinha a face tostada pelo sol e sombreada por um buço negro e já espesso. Cobria-lhe a fronte larga um chapéu desabado de baeta preta. O rosto comprido, o nariz adunco, os olhos vivos e cintilantes davam à sua fisionomia a expressão brusca e alerta das aves de altanaria. Essa alma devia ter o arrojo e a velocidade do vôo do gavião.
Pelo traje se reconhecia o gaúcho. O ponche de pano azul forrado de pelúcia escarlate caía-lhe dos ombros. A aba revirada sobre a espádua direita mostrava a cinta onde se cruzavam a longa faca de ponta e o amolador em forma de lima.
Era cor de laranja o chiripá de lã enrolado nos quadris, em volta das bragas escuras que desciam pouco além do joelho. Trazia botas inteiriças de potrilho, rugadas sobre o peito do pé e ornadas com as grossas chilenas de prata.
O morzelo, cavalo grande e fogoso, não tinha bonita estampa. Vinha arreado à gaúcha; as rédeas e o fiador mostravam guarnições de prata; eram do mesmo metal os bocais dos estribos à picaria e o cabo do rebenque de guasca, preso ao punho da mão direita.
Na anca do animal enrolava-se o laço abotoado à cincha, e do lado oposto os fiéis das bolas retovadas de couro, que descansavam no lombilho de um e outro lado. Pela perna esquerda do cavaleiro descia a ponta da lança gaúcha, cuja haste presa à carona apoiava-se de revés no flanco do animal.
Quem não conhecesse os costumes da província do Rio Grande do Sul, suporia que esse cavaleiro ia naquela desfilada correr alguma rês no campo; ou fazer uma excursão a qualquer charqueada próxima. Mas as pessoas vaqueanas reconheceriam à primeira vista um viajante à escoteira."

Franklin Távora



Um dos principais autores da época foi o cearense João Franklin da Silveira Távora, que nasceu em 1842 e faleceu no Rio de Janeiro, em 1888. Morou em Pernambuco onde, em 1863, formou-se em direito e seguiu a carreira de deputado e advogado.
Com trinta e dois anos, foi morar no Rio de Janeiro, e passou a trabalhar como funcionário da Secretaria do Império. Além disso, foi também jornalista e escreveu “A Consciência Livre” e “A Verdade”.
Ainda em Recife, já havia publicado os o contos e obras com caráter dramático, porém suas obras mais famosas eram os romances, dentre os quais se destaca “O Cabeleira”.


O cenário de seus textos era o Pernambuco do século XVIII. Seus livros sempre traziam na capa a nota “Literatura do Norte”, pois acreditava que a formação histórica do norte e do sudeste brasileiro eram completamente distintas, portanto era natural reconhecer além dessas diferenças, as diferenças nas paisagens e por isso as exploravas em seus romances. Por este motivo, Távora foi considerado o primeiro autor a tratar sobre o nacionalismo nordestino.

O Cabeleira





Este romance traz a história de José de Gomes, conhecido como Cabeleira, em 1776. José era um cangaceiro pernambucano, que, junto com alguns colegas, aterrorizava o estado em que vivia. Porém, quando se apaixona por Luisa, uma amiga de infância que reencontra quando está fugindo, passa a transformar completamente sua personalidade. Essa mudança ocorre devido ao poder de regeneração do amor, que para os autores românticos, nada supera esse sentimento.
Em "O Cabeleira", Taunay também começa a introduzir os primeiros gêneros do naturalismo.

Bernardo Guimarães



Bernardo Joaquim da Silva Guimarães nasceu em 1825 em Ouro Preto, Minas Gerais. Estudou em São Paulo e trabalhou como advogado, jornalista, crítico literário, juiz e professor.
Em 1864, escreveu “O Ermitão de Muquém”, "O Seminarista", "O Índio Afonso", porém sua obra mais famosa foi a “Escrava Isaura”, publicada em 1875.
Guimarães contextualizava suas obras em Minas Gerais e Goias, e tratava do típico amor impossível romântico, no qual se relacionava o “herói nobre, o patife e a heroína apaixonada”.

A Escrava Isaura



Neste romance, Guimarães mostra a figura da mulher como sendo uma heroína forte e independente, sendo capaz de enfrentar tudo sozinha. No trecho seguinte, pode-se perceber claramente a idealização da mulher através das características da escrava Isaura:





"A fisionomia, cuja expressão habitual era toda modéstia, ingenuidade e candura, animou-se de luz insólita; o busto admiravelmente cinzelado ergueu-se altaneiro e majestoso; os olhos extáticos alçavam-se cheios de esplendor e serenidade; os seios, que até ali apenas arfavam como as ondas de um lago em tranqüila noite de luar, começaram de ofegar, túrgidos e agitados, como oceano encapelado; seu colo distendeu-se alvo e esbelto como o do cisne, que se apresta a desprender os divinais gorgeios. Era o sopro da inspiração artística, que, roçando-lhe pela fronte, a transformava em sacerdotisa do belo, em intérprete inspirada das harmonias do céu"


  • Este romance também foi adaptado, dessa vez para uma novela, primeiramente para a Rede Globo e posteriormente para a Rede Record.

Visconde de Taunay





Alfred d’Escragnolle Taunay, o Visconde de Taunay, (1843 – 1899) nasceu e morreu no Rio de Janeiro e foi um dos criadores da Academia Brasileira de Letras. Filho de Barão de Taunay, um dos professores de Dom Pedro II, e neto de um pintor francês, Nicolau Antônio Taunay, o Visconde cresceu desde pequeno em um ambiente culto, tendo bastante contato com a literatura e a arte do oeste.
Taunay durante sua vida se envolveu muito na política brasileira promovendo o casamento civil, a abolição da escravidão e a imigração. Além disso, se revelou em diversas áreas artísticas compondo músicas, pintando e escrevendo.
Seu primeiro romance foi “Mocidade de Trajano” que publicou sob o pseudônimo de Sílvio Dinarte, em 1871. Outras principais obras do autor foram: “A Retirada da Laguna”; “Ao Entardecer”; “Goyaz”; “Inocência” e “ No Declínio”.

Inocência








No inicio do livro “Inocência” vemos um dos principais traços do romantismo regionalista. Veremos um trecho abaixo:

“Essa areia solta, e um tanto grossa, tem cor uniforme que reverbera com intensidade os raios do Sol, quando nela batem de chapa. Em alguns pontos é tão fofa e movediça que os animais das tropas arquejam de cansaço, ao vencerem aquele terreno incerto, que lhes foge de sob os cascos e onde se enterram até meia canela.”

Esse trecho, em primeiro lugar, possui uma a linguagem simples utilizada para atender um público de jovens e mulheres que viviam em lugares urbanos. Em segundo, descreve o interior brasileiro fazendo com que as pessoas que moravam nas cidades conheçam o próprio país, principalmente o Brasil fora dos centros. Outro trecho que complementa esta visão segue abaixo:

“... Bem faziam os nossos do tempo antigo. As raparigas andavam direitinhas que nem um fuso... Uma piscadela de olho mais duvi­dosa, era logo pau... Contaram-me que hoje lá nas cidades... arrenego!... não há menina, por pobrezinha que seja, que não saiba ler livros de letra de forma e garatujar no papel... que deixe de ir a fonçonatas com vestidos abertos na frente como raparigas fadistas e que saracoteiam em danças e falam alto e mostram os dentes por dá cá aquela palha com qualquer tafulão malcriado... pois pelintras e beldroegas não faltam...”

Neste trecho, percebe-se também que além da descrição da paisagem do interior do Brasil existia uma preocupação em mostrar os costumes e a mentalidade das personagens de várias regiões do país, que se diferenciava dos costumes dos centros urbanos.



  • Este livro se tornou tão importante para a literatura brasileira que foi adaptado para um filme, sob direção de Walter Lima Jr. e protagonizado por Fernanda Torres, como Inocência, e Edson Ceulari, como Cirino.